O pavão e a escola que atrasa o pensamento

Existe uma escola que atrasa o pensamento?

Há pouco mais de um mês, me vi diante dessa constrangedora pergunta. Quem a formulou, colocando-me numa tremenda saia justa, foram meus filhos.

Três pares de olhos, brilhavam na luz fraca do quarto, estrategicamente pensada para acalmar e fazer um convite ao sono. O dia tinha sido cansativo… como tantos outros dessa quarentena.  Ser mãe de trigêmeos, confinados em um apartamento, tem lá suas dificuldades, como você pode imaginar. Tudo o que eu queria, naquela noite, era que os três, embalados pela leitura,  se resignassem ao descanso tão necessário e pelo menos uma vez não lutassem contra o inevitável.

Mas no lugar do sono, naqueles olhos eu vi perplexidade:

     – Mamãe, existe, de verdade, uma escola que atrasa o pensamento?

Agora reconheço que meu plano foi mal arquitetado desde o início. A luz fraca ajuda, mas a leitura – eu já sabia – sempre traz o risco de aguçar em vez de aquietar. Fiz a aposta errada, sobretudo quando escolhi uma obra da instigante Lygia Bojunga. Foi meio sem querer,  é verdade. Encontrei o livro numa caixa no escritório, esquecido e empoeirado e eu mesma nunca o tinha lido.  Fiquei curiosa e isso influenciou a minha escolha.

O livro é longo, para ser lido um pedaço a cada noite. Na primeira delas conhecemos  o protagonista Alexandre e seu amigo Pavão,  este último um personagem que imediatamente conquistou a simpatia e a curiosidade dos meninos por seu jeito completamente amalucado.

A ave, de rara beleza, acompanhava Alexandre numa incrível viagem à Casa da Madrinha (título do livro). Na jornada fomos sendo apresentados à história de ambos e os meus filhos foram ficando cada vez mais fascinados pelas características daquele Pavão, que entre outras esquisitices, tinha o pensamento pingado. A parte lida naquela noite esclarecia tudo: cansados das fugas recorrentes da bela ave, seus antigos donos encontraram um meio definitivo de subjugá-lo.

” […]  Aí perderam, a paciência e resolveram: ‘vamos acabar de vez com a mania desse cara se soltar’. E então levaram o Pavão para uma escola que tinha lá perto e que era uma escola feita de propósito para atrasar o pensamento dos alunos.”

Sim, eu sei… fui ingênua. Como poderia esperar que eles dormissem depois disso?

Respirei fundo, olhei no relógio: eram quase dez horas. Eu sabia que não tinha como escapar dessa. Precisava conversar com meus filhos  sobre um certo tipo de escola que atrasa o pensamento e sim, ocorreu-me por um momento dizer que isso era coisa de livro, que não existia de verdade.

Mas preferi ser sincera e eles quiseram saber COMO, afinal de contas, uma escola podia atrasar o pensamento.

Minha resposta não veio pronta. Achei por bem levá-los a pensar na organização da escola na qual eles estudam, que certamente é a antítese daquele tipo de escola para a qual o Pavão havia sido mandado. Então, no lugar de uma resposta, fiz uma série de perguntas:

     – Como vocês se sentiriam numa escola na qual não pudessem desenvolver seus próprios projetos de estudo?

     – Como seria se tivessem um livro ou apostila para cada área (português, matemática, ciências, história, etc.) e precisassem preencher várias páginas de atividades todos os dias, inclusive boa parte delas como tarefa de casa?

     – E se em vez de 45 minutos de recreio tivessem apenas 15 ou 20

     – E se a escola fosse apenas um lugar para estudar os ‘conteúdos escolares’?

     – E se em vez de socializar com colegas e orientadoras suas descobertas e produções, vocês fizessem provas e recebessem uma nota para indicar o quanto aprenderam ou deixaram de aprender?

Tudo aquilo lhes pareceu muito estranho, uma vez que a escola na qual estudam é pensada acima de tudo como um espaço de relações, que se constitui no ser e no fazer juntos, na afirmação dos corpos, na valorização dos saberes e afetos, no respeito às singularidades e na escuta.

Como poderiam entender que uma escola pudesse ser diferente disso?

Foi então que eles me perguntaram sobre a escola na qual eu havia estudado quando era criança. Queriam saber se ela era daquele jeito – do tipo que atrasa o pensamento.

Contei-lhes que na minha escola eu não participava da escolha dos temas de estudo, nem desenvolvia projetos a partir daquilo que me interessava. Que ninguém me perguntava o que eu tinha vontade de estudar, que meus professores me diziam o que eu tinha que aprender e como eu tinha que aprender, que era do jeito que eles achavam que era o certo:

– Pensando bem – eu disse – acho que eles acreditavam que havia um único jeito de aprender!

Nessas alturas, eu já tinha aceitado que os guris não iriam mais dormir tão cedo! Se antes apenas os olhos se rebelavam contra o sono, agora seus corpos já davam sinais claros de que a conversa ia longe. Em resposta a um sonoro “COMO ASSIM?” resolvi que era hora de transitar pelo caminho no qual me sinto mais à vontade e com o qual, por serem meus filhos, eles também tem bastante familiaridade: a matemática. E novamente, no lugar da resposta, fiz uma pergunta:

– Como é que vocês fazem para somar 25 mais 18?

Escolhi um cálculo bem simples, em função do adiantado da hora. Era suficiente para chegarem onde eu queria levá-los. O Rafael, foi o primeiro a responder:

– Eu ia fazer 25 mais 10 e ver quanto que ia dar…  daí eu pegava o tanto que deu e colocava mais 8 (note que ele nem se deu ao trabalho de calcular).

– Eu não! – disse o Gustavo. Eu ia fazer 25 mais 20, que daí eu já sei que vai dar 45 e depois era só tirar 2, que dava 43.

Finalmente o André, com mais detalhes do que o Rafael, mostrou seguir o mesmo caminho:

– Eu faria 25 mais 10 que daí já dá 35… daí era só colocar mais 5 que já dá 40 e depois mais 3 que vai dar 43″.

Eu estava certa, aquela pergunta havia sido uma boa escolha. Era por aí que eu iria alcançá-los:

– E se eu dissesse para vocês, que na minha escola nunca ninguém me perguntou como eu faria esse cálculo?

Contei-lhes então, que desde o primeiro ano de escola, minha professora já explicava que era para calcular era preciso ‘armar uma conta’ no papel, colocando  o 25 numa linha e o 18 em outra linha, com cuidado para ficar unidade embaixo de unidade e dezena embaixo de dezena… que a gente tinha que somar primeiro as unidades e depois as dezenas, se nas unidades o resultado fosse maior do que 9, tinha que usar o ‘vai um’…

Enfim, abstenho-me de reproduzir aqui todo meu discurso uma vez que você, minha leitora,  meu leitor, deve conhecer de cor e salteado aquilo que para meus meninos era algo totalmente desconhecido.

Sim, eles tem 9 anos, estão matriculados no quarto ano e não conhecem os algoritmos convencionais das quatro operações. Na verdade, enquanto eu lhes apresentava aquela sequência de passos, fui interrompida por uma pergunta muito interessante:

– Mamãe, o que é dezena mesmo?

Eu imagino que você deva estar se perguntado: como assim, eles não sabem o que é uma dezena? Não é importante conhecer os algoritmos convencionais? E se fossem números mais altos, eles seriam capazes de calcular?

Não tenho a pretensão de responder essas questões nesse texto, mas asseguro-lhes, por hora, que os três não apenas fazem cálculos com números mais altos e envolvendo as outras operações aritméticas, como também resolvem problemas matemáticos com bastante engajamento, habilidade e uma boa dose de criatividade. Em algum momento eles vão conhecer esses algoritmos como, aliás, já começaram a fazer na noite em questão. E sim, eles compreendem claramente e há bastante tempo o que são dezenas, centenas ou unidades. Só não estão habituados com o uso dessa nomenclatura.

Mas voltemos à escola que atrasa o pensamento….

Foi o Gustavo o primeiro a romper aquele raro momento de silêncio que seguiu-se à nossa conversa sobre cálculos. E quando ele falou, conseguiu expressar uma compreensão que eu mesma só cheguei a ter quando já era professora:

“Ah mamãe… agora eu entendi porque a escola atrasava o pensamento. É porque se a professora fizesse uma pergunta, ou você tivesse que fazer um cálculo… em vez de pensar você tinha que ficar tentando lembrar o que ela te ensinou…”

Sim, eu sei! Eu poderia – e talvez até deveria – acabar o texto com a brilhante conclusão do Gustavo.

Seria como naqueles filmes em que o fim nos põe a refletir, deixa algo para se fechar na mente de cada espectador. Mas não posso deixar de compartilhar a última pergunta feita pelos guris, apresentada já com certa preguiça, pouco antes de finalmente se entregarem ao sono:

“Mãe… e hoje em dia… ainda existe escola desse tipo, que atrasa o pensamento das crianças?” 

Deixo-a aqui como uma provocação para pensar:

Será que estamos fazendo, como professores, uma escola realmente diferente daquela na qual éramos alunos? Mais do que isso, deixo-a aqui como um convite para agir: Vamos juntos modificar, de modo mais profundo, a nossa realidade escolar?

 

6 thoughts on “O pavão e a escola que atrasa o pensamento

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    Marilia Fanucchi

    Não há como não ler esse texto sem se colocar no lugar de um aluno que estudou em uma escola que atrasa o pensamento. Reconheci a mim mesma, fazendo contas e decorando a tabuada, odiando a matemática que me rotulava como burra. E me identifiquei com os guris, desconstruindo o esquema implantado em meu cérebro de realização de cálculos matemáticos.
    Além disso, senti uma gratidão imensa por todos os professores que “burlaram” as regras das escolas em que estudei para que, mesmo cumprindo os currículos impostos, me proporcionaram espaços para sonhar, aprender e construir a professora que me tornei.
    Obrigada pelo convite à reflexão, Ana Ruth.

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    • Ana Ruth Starepravo
      Ana Ruth Starepravo

      Marília, querida! É sempre bom pensar junto com você, compartilhar ideias e sonhos. Gratidão por esse retorno tão carinhoso ao nosso trabalho. Beijos.

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    Geisa

    Que texto!
    Que encanto o raciocínio lógico dos teus filhos!
    E como são boas as reflexões que você nos provoca!
    É sempre muito bom te ver, te ouvir e te ler porque cada vez que fazemos isso é como se nos lembrássemos que não há um só caminho para ensinar e aprender.
    Obrigada por compartilhar conosco seu conhecimento!

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    Vilda Nascimento

    Olá….vi hoje sua live para os professores de Osasco. Sou uma pessoa que sempre me questionei porque a maior parte das pessoas que conheço tem dificuldade no aprendizado da matemática? Assim como eu. Obrigada por iluminar minha mente. Live excelente, parabéns!

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    REJANE SOARES

    QUE RACIOCÍNIO ESPETACULAR!! SABE, DRA ANA RUTH, HA DEZ ANOS QUANDO FIZ MINHA GRADUAÇÃO EM PEDAGOGIA, MINHA MESTRA EM MATEMÁTICA, A TAMBÉM, DRA SUELY FANIZE, NOS ENSINOU A DESCONSTRUIR A MATEMÁTICA ANTIGA E LEVAR AOS NOSSOS ALUNOS SUA AUTONOMIA, RACIOCÍNIO, DESCOBERTA DOS NÚMEROS E MUITO MAIS , ATRAVÉS DA NOVA MATEMÁTICA QUE ELA NOS ENSINOU. E HOJE, DIA 14 DE JULHO DE 2020, ASSISTINDO SUA LIVE ATRAVÉS DA PLATAFORMA PLANNETA, PELA SECRETARIA DE EDUC DA CIDADE DE OSASCO, SÓ ME REFORÇOU QUE ESTOU NO CAMINHO CERTO. QUANDO PREFIRO USAR ALGUMAS AULAS A MAIS, MAS TER A CERTEZA QUE MEUS ALUNOS ESTÃO CONSEGUINDO ABSORVER SEU PRÓPRIO RACIOCÍNIO, DEIXANDO DE LADO AS CONTINHAS ARMADAS DO PASSADO E “DESMANCHANDO” OS NÚMEROS PARA CHEGAR NO RESULTADO ESPERADO. OBRIGADA

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    • Ana Ruth Starepravo
      Ana Ruth Starepravo

      Que coisa boa, Rejane! Uma alegria receber sua mensagem. Leva mais tempo sim, mas quem disse que aprender é algo que se faz rápido? Te desejo sucesso e espero continuar encontrando-a por aqui. Estamos reestruturando esse espaço e em breve ele estará cheio de novidade. Grande abraço.

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