MENOS SPOILERS NAS AULAS DE MATEMÁTICA, POR FAVOR!

Você já experimentou a frustração de receber um spoiler sobre sua série favorita ou sobre aquele livro especial?

Para quem ainda não está familiarizado com esse termo, o spoiler é uma espécie de estraga-prazeres.

Esse termo tem origem no verbo spoil (língua inglesa) que significa reduzir o prazer, interesse ou beleza de alguma coisa. Spoiler é todo texto, vídeo ou fala que revele uma informação sobre um filme, uma série ou um livro antes que você a tenha visto ou lido na própria fonte.

Mas o que os spoilers tem a ver com a aprendizagem de matemática na escola?

Muito mais do que você imagina! Você já percebeu como muitas crianças costumam perder o encanto pela aprendizagem quando o assunto é a matemática?

Pois bem, sabemos que as crianças são curiosas, investigadoras e cheias de imaginação. Carl Sagan, um dos cientistas mais carismático e influente da história, dizia que as crianças são cientistas natos, que fazem perguntas provocadoras e perspicazes e que demonstrando grande entusiasmo por novas descobertas.

Infelizmente, o sistema escolar costuma causar um impacto bastante negativo nesse “espírito científico” da criança, que na sala de aula deixa de ser uma investigadora, ativa em seu processo de aprender, para se tornar uma receptora de informações. Ali ela deve seguir o currículo, não mais seus interesses. Em vez de fazer perguntas deve dar respostas e estas devem estar em conformidade com o que já lhe foi ensinado previamente.

Sem nos darmos conta disso, nós, professores, atuamos frequentemente como verdadeiros spoilers em sala de aula.

Há um número a ser lido? Ah, ele é muito grande… deixe que eu leio para você!

Quer escrever um número? Deixa eu te explicar as regras do nosso Sistema de Numeração, depois você pode escrever.

Quer fazer um cálculo? Espera que eu vou te ensinar o passo a passo para você calcular.

Precisa resolver um problema? Deixa que eu te ensino o procedimento mais rápido e eficaz…

Nas aulas de matemática, de modo geral, não há mistérios a serem desvendado e sem mistério não há o encantamento da descoberta.

Não saber o que está por vir, não conhecer de antemão o resultado, a resposta certa ou o melhor procedimento gera uma expectativa saudável e faz com que a criança se abra para muitos possíveis. Em outras palavras, uma boa dose de mistério atrai, fascina, encanta…

Nesse exato momento você lê o que eu escrevo porque domina o sistema escrito, tem absoluta fluência em relação a ele.

Mas pense no tamanho do mistério que esse mesmo sistema representa para uma criança não alfabetizada.

Outro dia o Gustavo, meu filho de 6 anos, que está em processo de alfabetização, me perguntou por que precisávamos do C e do A para escrever CA, se existe uma letra que já tem esse som (K). Isso era um grande mistério para ele…

Dias antes, seu irmão Rafael, também de 6 anos estava radiante porque havia descoberto (sozinho) como se escrevia a palavra “acabei”. Quando lhe perguntei como era ele respondeu:

– Muito simples, é só fazer o A, o K, o B e o I !

Quem já acompanhou uma criança descobrindo o universo da escrita sabe o quanto esse processo pode ser fascinante. Quantas hipóteses interessantes são formuladas, quanta demonstração da mais pura lógica infantil há nesse percurso!

Tudo isso só acontece, é claro, se a escola souber preservar o mistério, se não lhes mostrar “o final”. Se oferece às crianças oportunidade para interagir da forma mais livre possível com a língua escrita.

Da mesma forma a matemática é um grande mistério para as crianças, um mistério a ser desvendado. Pense, por exemplo, em nosso Sistema de Numeração. Em todas as situações nas quais as crianças se deparam com números escritos. O que elas pensam sobre esses registros? Que ideias formulam?

As crianças, em geral, tem muito interesse pelos números. Gostam de contar, pelo simples prazer na sonoridade da contagem, gostam de brincar com os números. Gostam de “números grandes”, números com muitos zeros.

Gostam da ideia de infinito, pois é algo mágico para eles! Se encantam quando começam a descobrir que em relação aos números, quase tudo é relativo: ora 10 é muito, ora 10 é tão pouco… ora não pode haver nada maior que o 100, depois descobre-se que pequeno ele é diante do mil e do milhão!

Para uma criança, trata-se um universo todo a ser desvendado…

E como a escola lida com tudo isso? Que oportunidades oferece para aguçar a curiosidade das crianças em relação aos números?

Será que as crianças tem de fato oportunidade de brincar com os números antes que lhe sejam ensinados formalmente?

É muito importante que as crianças tenham oportunidade de interagir com os números em situações informais, ou seja, sem uma intenção didática propriamente dita.

Da mesma forma que costumamos ler para as crianças pequenas, que colocamos livros à disposição delas, para que explorem o universo da língua escrita, muito antes que saibam ler ou escrever, também podemos oferecer-lhes um contexto a partir do qual possam pensar sobre os números.

Quando meus filhos tinham 4 anos, descobriram que havia algo maior que mil e isso “atendia pelo nome de milhão”. Essa descoberta os fascinou! É claro que ainda não tinham compreensão sobre os números dessa magnitude, muito menos quais as eram as classes e ordens envolvidas, mas saber que havia algo tão “grande” quanto o milhão os deixou encantados.

O milhão passou a fazer parte das suas brincadeiras e conversas. Até na hora de dormir, ele estava presente. Que alegria receber um beijo de boa-noite acompanhado de belas declarações de amor como: “mãe, eu te amo mil!”; “ Mãe eu te amo milhão!”.

Mas sou mãe de trigêmeos, 3 guris, e cada um quer superar o outro em suas declarações de amor. Então, numa noite, após as habituais declarações de amor envolvendo milhares e milhões, o André me diz:

– “Mãe, eu te amo abóbora e esporão!”.

Curiosa perguntei o que significava “abóbora e esporão” e então ele explicou:

– “Ué… é mais do que milhão!”.

Depois disso, nas brincadeiras dos três apareceram ainda outros números “muito, muito, muito grandes” como o “feijão” e o “macarrão”. Hoje, com seis anos, já falam em bilhões, trilhões e quadrilhões, mas nada supera as “serpentes assassinas” (nem mesmo o infinito!)

Precisamos urgentemente deixar as crianças mais livres para pensar, para brincar com números, para inventar e resolver problemas significativos para elas.

Precisamos investir numa matemática mais oral com os pequenos, deixando-os formular e expressar suas idéias. O registro é importante? Claro que sim! Mas tudo a seu tempo e sempre com uma boa dose de invenção por parte das crianças! Lembra que mostrei o modo original como o Rafael escreveu pela primeira vez o número 2015? Está no post intitulado Dificuldades de aprendizagem em matemática: como explicá-las.

 

As crianças são muito mais inteligentes e criativas do que imaginamos! Por isso defendo menos reprodução, mais criações e descobertas nas aulas de matemática!

Nós professores não podemos funcionar mais como spoilers. Nossa tarefa é muito mais complexa, mas também muito mais bonita: em vez de contar o final, devemos apresentar mistérios, aguçar a curiosidade e o interesse das crianças. O professor chileno Carlos Calvo Muñoz, no documentário “La Educacion Prohibida” explicita de forma muito precisa essa ideia:

“A tarefa do educador consiste então, a todo momento, em mostrar mistérios, mostrar situações da natureza que, mesmo que já estejam descritas pela ciência, não o estão para a criança (aluno). De modo que ele se surpreenda frente a algo e trate de lhe encontrar uma explicação.”

Pare de explicar e passe a ouvir as explicações que seus alunos formulam para os conceitos matemáticos que pretende lhes ensinar. Garanto que você irá se surpreender!

4 thoughts on “MENOS SPOILERS NAS AULAS DE MATEMÁTICA, POR FAVOR!

  • Angélica Laurino

    Oi Anna, Td bem?
    Gostaria de saber qual é a faixa etária que que não é mais possível manter a criação e trabalhar com os conteúdos impostos pelo colégio?

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    • Ana Ruth Starepravo
      Ana Ruth Starepravo

      Oi Angélica. Como já lhe disse, essa é uma pergunta muito pertinente. Possível sempre será, se a escola colocar em primeiro lugar as pessoas que aprendem e não os conteúdos, mas certamente isso é mais difícil no Fundamental II e Ensino Médio em função da grande quantidade de conteúdos curriculares. Há que se construir uma nova proposta, com um currículo mais espiralado e pautado em competências mais do que nos conteúdos em si. Grande desafio!

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  • Ana Julia Kloeppel

    Genial e criativo!! Como tudo o que você faz… Parabéns e sucesso, sempre.

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    • Ana Ruth Starepravo
      Ana Ruth Starepravo

      Oi Ana Júlia. Obrigada pelo retorno. Saudades. Beijos.

      Responder

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