Dificuldade para ensinar matemática: o início de um percurso profissional e acadêmico

As pessoas costumam me ver como uma matemática.

Muitas vezes precisei corrigir a forma como fui apresentada num curso ou numa entrevista ou mesmo como meus interlocutores se dirigiam a mim numa conversa (e o faço até hoje). Não fiz o curso de Matemática e sim o de Pedagogia. Minha formação, portanto, é em Ciências Humanas, mas ao longo da minha vida profissional acabei tecendo uma estreita relação com essa área das Ciências Exatas que é a matemática.

Talvez não seja muito comum uma pedagoga transitar tanto por essa área, embora eu mesma conheça algumas que o fazem, e com bastante competência. No meu caso, tudo começou com minha grande dificuldade para ensinar matemática aos meus alunos.

Na faculdade não estudei nada relacionado ao ensino e aprendizagem de matemática. É bem verdade que as disciplinas de Didática e de Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem, ambas sob a responsabilidade de professoras muito competentes, foram de fundamental importância para a construção da minha identidade docente e provavelmente fomentaram a insatisfação que desenvolvi, mais tarde, em relação à forma como eu ensinava matemática para meus alunos.

Entretanto, saber que precisava mudar o encaminhamento dessa disciplina, não significava que dispunha de meios para fazê-lo.

Sempre fui uma professora inquieta, daquelas que inventa moda o tempo todo e tenta continuamente despertar em seus alunos paixão e encantamento pelo aprender. Acho que isso se deve em parte às palavras que ouvi de meu pai, ele mesmo um professor, quando, no final da década de 80, resolvi fazer o antigo e já extinto curso secundário do magistério. Ele, que a princípio tentou me convencer a trilhar outro caminho, por fim deu-me um precioso conselho:

– Se é isso mesmo que você quer, tenha consciência das dificuldades que vai enfrentar e seja a melhor professora que você já conheceu!

Minha estréia como professora foi numa turma de 1ª série, em uma escola que questionava a linearidade e artificialidade do método silábico e buscava um caminho alternativo para a alfabetização. A ideia era explorar o uso social da escrita, sempre em contextos significativos para a criança, inspirados no método natural de Freinet e nos estudos realizados por Emília Ferrero e Ana Teberosky.

Celestin Freinet com seus alunos, ao ar livre.

Descobrir que uma criança poderia ser alfabetizada sem os clássicos e grotescos textos como “O boi baba no bebê” ou “Ivo viu a uva”, me fascinou.

Me dei conta de que muito antes de serem alfabetizadas formalmente, as crianças já interagiam com esse objeto cultural que é a língua escrita e que não eram “recipientes vazios” a serem preenchido pelos meus ensinamentos, mas seres pensantes e inteligentes tentando continuamente desvendar aquilo que para eles se tratava de um grande mistério.

Nesse processo, levantavam hipóteses muito interessantes, que me levaram a compreender, cada vez com mais clareza, que as crianças tinham uma forma muito peculiar de pensar.

O que realmente me incomodava é que com a matemática eu não conseguia ter a mesma postura.

Era como se fossem duas professoras muito diferentes, uma trabalhando com a língua portuguesa e outra com a matemática. No primeiro caso acompanhava as crianças num processo de construção, de criações e descobertas, no segundo, apresentava conceitos, dava modelos e esperava que fossem capazes de repeti-los corretamente.

Embora eu não fosse uma especialista em linguística ou alfabetização, a escola na qual eu trabalhava investia muito em formação nessa área e isso foi determinante para a construção da minha prática pedagógica. Mas não posso dizer o mesmo em relação à matemática (algo que eu vejo até hoje em grande parte das escolas e redes municipais de ensino nas muitas cidades do Brasil por onde já passei). Há uma grande preocupação com a alfabetização, um histórico de formação nessa área, mas pouco se faz em relação ao trabalho com a matemática (com exceção, mais recentemente, do trabalho realizado em função do Pacto Nacional para Alfabetização na Idade Certa – PNAIC).

A maioria das professoras e dos professores dos anos iniciais termina o curso de Pedagogia sem ter uma boa base em relação à Didática da Matemática (quando tem alguma!). E, assim como eu, quando vai trabalhar com essa disciplina na escola, tem como referencial principal a sua própria experiência como estudante. Ou seja, ensina matemática de uma forma muito parecida com aquela que seus professores lhe ensinaram. Não porque concorde com ela ou a considere a melhor forma, mas simplesmente porque desconhece uma forma melhor.

Não é raro meus alunos nos cursos de pós graduação ou mesmo os professores com os quais trabalho em todo o Brasil confidenciarem-me seu desgosto (e em alguns casos até mesmo um trauma) em relação à matemática. Nas formações que realizo, quando pergunto aos participantes o que mais lembram de suas aulas de matemática em sua época de estudantes, é muito comum citarem sentimentos como medo, ansiedade, vergonha e insegurança.

Citam também a lista interminável de “contas” a resolver, as longas sequências numéricas a serem registradas, a dificuldade com frações e transformações de unidades de medida. E as equações então? Se já era difícil compreender a matemática quando envolvia apenas números, o que dizer do momento em que eles foram substituídos por letras?

É duro ter que ensinar algo que você mesmo nunca compreendeu direito!

E talvez, mais duro ainda, seja admitir isso.

Foi por isso que, em meados dos anos 90, comecei uma busca incansável por um modo melhor de ensinar matemática para meus alunos. No início foi uma busca solitária, ao estilo autodidata. Achei ter encontrado a solução do meu problema no uso de “materiais concretos”, especialmente o Material Dourado (em outro post abordarei o mito que há em torno desses materiais para a aprendizagem de números e operações).

 

Material Dourado
Quadro Valor de Lugar
Ábaco

 

 

 

 

 

Embora a princípio tenha ficado muito satisfeita com os resultados da utilização desses materiais, aos poucos fui percebendo que funcionavam como uma espécie de muleta para as crianças. Ajudavam a “dar respostas corretas”, seguindo os modelos apresentados. Sentia claramente que eu, como professora, estava falhando justamente naquilo que deveria ser o principal objetivo da educação: o desenvolvimento da autonomia!

Meus alunos não sabiam lidar com o novo, não sabiam resolver problemas, o que faziam era tentar “adivinhar” a conta correspondente: é de mais ou de menos? De vezes ou de dividir, profe?

Onde estavam aquelas crianças ativas em seu processo de aprender?

Onde estava aquela professora que conseguia despertar interesse genuíno pela língua escrita, pelos fenômenos da natureza e fazer da aprendizagem um processo fascinante de construções e descoberta pelas crianças?

Por que não conseguia fazer o mesmo em relação à matemática?

O que havia de diferente em relação ao meu trabalho com as outras áreas e com a matemática?

O que estava na base do trabalho que desenvolvia com a alfabetização?

A resposta dessa última questão estava clara para mim: o que me permitia desenvolver um bom trabalho com a alfabetização era o conhecimento de como a criança se apropriava da língua escrita! Era isso! O que me faltava era compreender como as crianças se apropriavam dos conceitos matemáticos. Em outras palavras: para mudar a forma como eu ensinava matemática era necessário compreender como as crianças aprendiam matemática.

A mudança efetiva em minha prática começou somente quando mudei a minha pergunta de “como ensinar matemática?” para “como as crianças aprendem matemática?”.

O que descobri na busca por uma resposta à segunda questão mudou não apenas a forma como passei a ensinar matemática, mas a minha própria compreensão sobre o papel da escola na vida das crianças. Descobri que ao ensinar matemática eu poderia ir muito além do conteúdo curricular, ajudando meus alunos a tornarem-se seres pensantes, autônomos, proativos, autoconfiantes e articulados, capazes de se comunicarem com mais clareza e precisão.

Costumo dizer que entrei num caminho sem volta, pois fiquei completamente maravilhada com a nova perspectiva que se abria para mim. Descobrir como se estruturava o pensamento matemático das crianças, que elas eram capazes de elaborar estratégia muito originais para resolver problemas e que podiam desenvolver procedimentos de cálculo completamente diferentes dos algoritmos convencionais ensinados na escola me fascinou.

Quão pouco eu sabia sobre a formas de raciocínio das crianças. Precisava saber mais!

À medida que fui descobrindo que a lógica usada pelas crianças para lidar com questões matemáticas era completamente diferente daquela usada no ensino, o desejo de saber mais tornou-se uma necessidade.

Foi assim que, aos poucos, fui me aproximando da matemática, com humildade e respeito por algo tão desconhecido para mim. Essa aproximação não se deu pela matemática em si, mas pelo interesse em tornar os primeiros contatos das crianças com essa disciplina algo muito mais proveitoso. Algo que vai além de identificar classes e ordens dos números, fazer contas, decorar a tabuada, repetir procedimentos e fórmulas, dar respostas corretas.

Tarefa difícil para uma pedagoga! Era preciso ter apoio e acabei encontrando-o na pesquisa acadêmica. Tanto no mestrado quanto no doutorado desenvolvi pesquisas ligadas ao ensino e aprendizagem de matemática (o primeiro realizado na UFPR, em Cognição e Aprendizagem e o segundo na USP, em Ensino de Ciências e Matemática)

 

Defesa de Mestrado na UFPR em 2001. Com minhas orientadoras Maria Lucia Faria Moro e Maria Tereza Carneiro Soares.

 

Defesa de Doutorado na USP em 2010. Componentes da banca: Neuza Bertoni Pinto; Nilson José Machado; Lino de Macedo (orientador), Leny Teixeira; Luiz Carlos de Menezes

Esse foi o início de um percurso profissional e acadêmico que, embora tenha me impedido de continuar como professora dos anos iniciais, nunca me afastou da sala de aula. Minhas pesquisas sempre foram realizadas na escola básica e meus trabalhos de Formação Docente frequentemente são desenvolvidos numa parceria com professores, envolvendo uma atuação conjunta em sala de aula.

Agora que você já conhece um pouco sobre a minha história, me deixe saber algo sobre a sua: você se identifica, de alguma forma, com essa minha trajetória?  Também tem um forte desejo que seus alunos aprendam matemática e construam uma boa relação com essa disciplina no início de sua escolaridade? Sente que lhe faltam ferramentas para uma mudança efetiva em sua prática docente?

Compartilhe seus anseios! Deixe seu comentário. Vamos formar uma rede de educadores capazes de transformar o ensino de matemática em nosso país!

 

5 thoughts on “Dificuldade para ensinar matemática: o início de um percurso profissional e acadêmico

  • Tatiana Miho Rizzardi de Oliveira

    Boa noite, Ana!
    Sou professora da rede particular de uma turma de 1o. Ano do fundamental. Me identifiquei bastante com esse seu desconforto diante do ensino da Matemática, pois, de fato, difere muito do trabalho que fazemos em Língua e Ciências. Por mais que possibilitemos às crianças compartilharem entre si seus modos de pensar e resolver, por exemplo, situações problema para que ampliem seu repertório de estratégias, há sempre a sensação de que algo não vai bem quando me deparo com aqueles alunos que demonstram não ter compreendido nada e, por isso, não se envolvem com o desafio proposto e só aguardam o resultado para completar a atividade… então sei que o problema está na proposta e talvez na forma como conduzo. Mesmo assim, fico sem saber por onde e como fazer para mudar isso. Trabalhamos com Projetos e sequências didáticas envolvendo diversos jogos, brincadeiras, coleções e o calendário, que são as principais ferramentas que temos para contribuir com o desenvolvimento dos estudantes nesta área.
    Gostaria, portanto, de buscar reflexões, aliviar esse incômodo que tenho com a minha didática e aprender mais para utilizar essa aprendizagem com os meus alunos.
    Parabéns pelo seu trabalho e agradeço a iniciativa de compartilhar aqui suas experiências e conhecimentos!
    Abraços,
    Tatiana.

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  • Ana Ruth Starepravo
    Ana Ruth Starepravo

    Olá Tatiana, essa semana vou disponibilizar um material sobre o uso da tira numérica com o 1° ano. Acho que vai contribuir bastante com a sua prática. Também quero oferecer um guia de estudos, que se constituirá numa relação de textos e livros que podem ajudar a melhorar ainda mais a sua prática. Continue acompanhando o blog e vamos mantendo contato. Abraço, Ana.

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  • Delma Marcelo dos Santos

    Olá, Ana Ruth.
    Estou mais envolvida com o universo da Matemática graças a você. Em 2011 tive o privilégio de conhecê-la quando fez algumas formações para professores no município de Duque de Caxias, no RJ. Depois fui formadora do PNAIC, onde pude avançar um pouco mais nos estudos sobre a didática da Matemática. Agradeço pelo convite para apreciar seu trabalho fantástico!!
    Agora meus dois desafios são: fazer com que as professoras da creche onde trabalho possas oportunizar verdadeiras experiências matemáticas para as crianças e sensibilizar os professores de uma escola rural a ensinar a Matemática a partir dos saberes e do modo de pensar dos alunos. A maioria são multirrepetentes. Tem alguma referência que possa me ajudar?

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    • Ana Ruth Starepravo
      Ana Ruth Starepravo

      Que bom saber que ajudei você a se envolver mais com o universo da matemática Delma. Fiz uma palestra em Guarapari no último domingo, justamente sobre a matemática na Educação Infantil. Você pode baixar o PDF da apresentação, acessando em “palestras”. Quanto ao trabalho com os professores, sugiro o livro “Na vida dez, na escola zero”. Continue acompanhando o Blog, ainda vou disponibilizar vários materiais para serem explorados com as crianças em sala de aula. Grande abraço.

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      • Delma Marcelo dos Santos

        Obrigada!!!
        Você é uma querida!!
        Estou adorando o Blog e sonho com o dia em que poderei revê-la!!!
        Super abraço!!

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